3 de janeiro de 2013

O cancro na 1ª pessoa

O cancro da mama é o tipo de cancro mais comum entre as mulheres (não considerando o cancro da pele), e corresponde à segunda causa de morte por cancro, na mulher.
Em Portugal, anualmente são detectados cerca de 4500 novos casos de cancro da mama, e 1500 mulheres morrem com esta doença.

O cancro da mama é uma das doenças com maior impacto na nossa sociedade, não só por ser muito frequente, e associado a uma imagem de grande gravidade, mas também porque agride um órgão cheio de simbolismo, na maternidade e na feminilidade.

Ana Paula Oliveira, tem hoje 40 anos, e considera-se uma “vencedora” neste que foi o um combate com sucesso contra o cancro da mama.

Ana Paula, como descobriu que tinha cancro?
«Eu sabia , por ter ouvido dizer, que as mulheres enquanto tomam banho devem fazer palpação às mamas e então um dia estava a tomar banho, fiz a palpação e vi algo diferente na mama direita, mas como estava próxima da menstruação não me preocupei pois podia ser alteração hormonal. Dois dias depois senti que ainda estava lá aquele "papinho" e não achei normal, comentei com uma amiga esta situação que me aconselhou a ir um médico e assim o fiz. No dia seguinte fui a um médico particular falei com ele, e pedi uma ecógrafia mamária para ver o que era e como tenho uma amiga que trabalha no porto numa clínica, ela arranjou-me a ecografia logo na sexta-feira. Um dia depois, o médico que estava a fazer a ecógrafia viu que não era um quisto mas sim um nódulo e aconselhou-me a fazer mais testes, uma biópsia para ver se era maligno ou benigno. Fiz o exame e aguardei o resultado, foram onze dias de ansiedade, não comentei com ninguém pois podia ser falso alarme, e recebi o exame com a notícia de que era maligno»

Após saber o resultado que providências tomou?
«Após saber o resultado não descansei, graças a Deus tinha possibilidades de ir a um médico particular e acelerar todo o processo, tenho pena que nem toda a gente o possa fazer mas infelizmente há aspetos que a medicina em Portugal deve melhorar. Consegui consulta no mesmo dia que soube o resultado da biópsia, o médico explicou-me detalhadamente o que eu tinha e no fundo vim uma pessoa muito mais calma, estava com muita ansiedade, nervosismo,medo, porque de tanto ouvir dizer do cancro a minha cabeça ficou um turbilhão de ideias e sem saber o que fazer, mas falando com o Doutor Vítor Veloso que é um grande médico, voltei pra casa mais calma, descansada e acima de tudo esclarecida. Ele alertou-me e disse que só operando é que ia saber a dimensão do tumor, podia estar só num canto, como se podia já ter alastrado por toda a zona mamária, eu queria era ficar bem e disse ao doutor para ir em frente, desde que fosse para eu ficar bem. Dois dias depois fui logo operada, nunca me deixei ir abaixo, talvez porque nem tive muito tempo para pensar e reflectir sobre o que me estava a acontecer. A operação correu muito bem, removi a mama direita. Durante a operação retiraram um pouco da mama e também da axila, para analise para ver em que ponto estava o cancro, saber se o cancro alastrou e comunicaram-me quando comecei a fazer os curativos. Entretanto o resultado chegou, estava tudo bem, o cancro não alastrou, mas mesmo assim o médico insistiu para que fizesse os tratamentos mais fortes e assim foi, comecei a quimioterapia de 15 em 15 dias, seis sessões e de seguida parti para a radioterapia. Foi muito doloroso, na quimioterapia comecei a perder cabelo»

Como lidou com essa situação?
«No primeiro tratamento já sabia que ia perder o cabelo todo e fui logo esclarecida nesse aspeto, mas cortei logo o cabelo bastante mais curto sem o rapar totalmente. Ao segundo tratamento bastava passar a mão pelo cabelo que ele saía “às mãos cheias”, a maior parte das mulheres costuma dizer que a parte da queda do cabelo é a que custa mais, mas eu sou sincera, não me custou nada, foi uma coisa que encarei de ânimo leve e não me causou qualquer tipo de obstáculo, posso dizer que a nível psicológico não andava bem pois a minha mãe pela mesma altura também descobriu que tinha cancro, mas no útero e tinha sido operada à pouco tempo, e toda aquela situação estava a mexer bastante comigo a nível emocional. No terceiro tratamento estava a ficar afetada não pelo tratamento em si mas por toda a situação que se estava a viver em minha casa, passei uma fase muito, mas muito complicada, era um mau-estar constante, eu pensava e penso, se é para um bem maior, pensando a longo prazo vale a pena, já passaram 6 anos, tinha 34 anos e tem estado tudo bem»

Fez mais algum tratamento para além desses?
«Após fazer a quimioterapia e a rádioterapia, a médica que me acompanhou durante o processo aconselhou-me a tomar todos os meses uma injeção para precaver algo que pudesse vir a aparecer mais tarde também nos meus ovários, como era e sou uma pessoa jovem a médica aconselhou-me e assim segui o conselho e fiz esse tratamento, durante dois anos tomei essa injeção o que fez com que deixa-se de ter menstruação pois essa injeção cria uma espécie de capa à volta dos ovários que impede te haver qualquer tipo de atividade “ovular” digamos assim, como consequência disso o meu organismo alterou e engordei 14 ou 15 kilos, era uma mulher magra e vi a minha forma física alterar drasticamente Mais tarde ainda decidi fazer a reconstrução da mama direita, mas infelizmente essa parte não correu muito bem, para além de estar alterada a nível de peso, vi o meu corpo a ter cada vez mais cicatrizes, ganhei uma infeção durante os 4 meses de tratamento da reconstrução que não correu bem e nem está acabado. Fiquei abalada a nível psicológico, transtornada e vi o meu aspeto físico cada vez mais diferente, psicologicamente sou diferente hoje em dia.»


O que significa estar diferente para si?
«Como mulher, pensando bem e aprofundando a situação que vivi sinto-me uma mulher insegura, é difícil admitir, mas sou insegura, em algumas fases da minha vida sentia que estava a perder valor, sinto que aos poucos a minha auto-estima esta a voltar, deixei de sair com as minhas amigas, saía sempre, deixei-me disso, adorava conviver e conhecer novas pessoas, hoje não sou assim, talvez porque me tenha esquecido um pouco da minha doença pois também tinha que dar apoio familiar e digamos que senti a “ressaca” da minha doença mais tarde, sinto que não vivi na hora certa o meu problema de saúde, como tinha outras prioridades a nível familiar, acho que não vivi o luto da minha doença, escondi o que sentia e não assumi certas coisas, que mais tarde me deixaram insegura e ao mesmo tempo abalada a nível psicológico.»

Quer deixar algum conselho q quem já passou ou está a passar por uma situação idêntica? 
«Sim, nunca desistam, viver vale sempre a pena, seja em que circunstância for. 
Eu própria descobri forças que não sabia que tinha e hoje estou aqui para contar a história.»

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