13 de dezembro de 2012

Muito mais que um corpo

João Pedro tem 23 anos e nasceu Ana Rita. 
Hoje é um transsexual feliz, “quase completo, mais forte ,e com mais força para viver”

João Pedro tem 23 anos, nasceu Ana Rita, mas sempre soube que estava no corpo errado.
“Aos 3 anos de idade, rezava a Jesus para no dia seguinte acordar e ter uma pilinha”.
Não conseguia verbalizar aquilo que sentia de forma nenhuma, e desde pequena que Ana Rita (agora João Pedro) se refugiava em orações e em desejos que nunca viu realizados “depositava a minha esperança em Jesus e no terço”. 
Ana Rita ia com a avó à missa e não queria ser uma menina, simplesmente por não se sentir como uma, era diferente de todas as outras e também as olhava com outros olhos. Mais tarde, já por volta dos 10 anos Ana Rita pensava “não era muito mais fácil ser lésbica simplesmente?” mas ela sabia que o que sentia e o que queria era muito mais do que simplesmente uma orientação sexual, era sentir-se um homem no corpo de uma mulher. 
Também por essa altura viu numa revista Filipa Gonçalves, a famosa modelo filha de um ex-jogador do Benfica, fora a primeira a assumir-se como transsexual e a ser respeitada por isso, Ana Rita viu então a esperança aumentar e inspirada nesta situação decidiu falar com a mãe “mãe é isto que quero fazer”. 

A principio a mãe ficou em choque mas sempre a apoiou. Começaram então as consultas, a psicóloga Ligia Fonseca que acompanhou todo este processo, imediatamente se apercebeu que estava diante de um caso de disforía de identidade de género “quando a Ana Rita entrou no consultório sabia bem o que queria e estava decidida a mudar por isso, psicologicamente era um rapaz”.

Hoje tem 23 anos e chama-se João Pedro, os tratamentos de mudança de sexo duram há 10 anos e faltam duas cirurgias para terminar o processo de mudança de sexo “O meu problema não era gostar de mulheres, o meu problema era ter um órgão genital feminino, não suportava sequer a ideia de uma mulher tocar-me enquanto eu tivesse corpo de mulher também” afirma João Pedro, que diz não se importar com o número de cirurgias a que for submetido desde que seja para ficar bem. “Uma coisa é o que nós somos, outra é o que nós gostamos” João Pedro sente-se hoje um homem, um homem feliz realizado, em parte graças ao apoio da família de todo o acompanhamento médico que teve no centro hospitalar de Coimbra e da força que dele próprio adveio.

O seu próximo passo é ter filhos, ser pai, “tenho muitos sonhos para viver e não é fácil pedir a uma rapariga para me compreender como eu quero ser compreendido”
João Pedro é hoje o exemplo de uma pessoa realizada e afirma “se me perguntarem se já fui mulher ? Não, nunca me senti como tal, já tive corpo de mulher, mas nós, somos muito mais que um corpo”.

Sérgio Ricardo Brito
Universidade Lusófona do Porto
Géneros Jornalísticos/2012